terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um comboio de vento

Eu não sou uma pessoa de quem os olhos consigam viver nas mesmas paisagens.
Tudo é demasiado fácil de memorizar e por isso perde o interesse.
Depois não consigo chegar a sentir saudade.
Isso é mau.
Andei pelos meu 20 anos como quem caminha dentro de um comboio numa viagem de 24 horas.
Gosto mais dos meus 20 anos, do meu coração, do que alguma vez o Chico Buarque será capaz de gostar.
Então,
É assim.
Quero um comboio infinito.
Um mundo em cada janela.
Eu antes memorizava os meus pensamentos durantes dias e dias até ter um papel.
Agora já fiz mais de vinte anos.
Já nada é assim, como dantes.
Eu sou um movimento, um vento em centrifugação universal, que ainda nenhum Deus conseguiu desenhar no seu caderno de papel cavalinho.
Depois há as gaivotas a desejar ser atropeladas por mim.
Esta auto-estima.
Ui!
Já me apaixonei por ti 30 vezes, uma por cada ano de vida.
Mas eu detesto Londres.
E para além disso gosto que sejas livre como eu.
Mas um dia vamos encontrar-nos em Málaga e vamos unir a Península Ibérica.
Até lá, landscape and site specific.
Eu adoro montanhas ao contrário da Clarice Lispector.
Não quero estar no topo, quero conseguir ver o topo e continuar a desejar lá chegar desta forma tântrica.
Amo-te dessa maneria que tu me ensinaste, é só isso.

Filhas bonitas, Mães lindas

A minha mãe sempre soube o que vai acontecer a seguir ao agora.
Sempre soube ver muito bem quais são as possibilidades das coisas antes de elas acontecerem.
Ela sabe como dispor os livros só de olhar para as prateleiras.
Sabe que cores ficam bem juntas em cada divisão da casa, só na imaginação.
Sabe quantas coisas cabem dentro das minhas malas de viagem.
Sabe os vestidos que me ficam bem quando olha para eles pendurados.
Sabe se a secretária do escritório da minha casa cabe ou não por baixo da janela.
Eu não.
Eu tenho de experimentar tudo.
Vejo sempre três ou quatro possibilidades e nunca sei qual é a que mais me agrada nem tão pouco qual é a melhor para a minha vida.
Vou fazendo. Tentativa e erro.
Há também aquelas possibilidades que eu nem sequer vejo e que quando surgem são dolorosas e podiam ter sido evitadas se eu fosse como ela.
Há também as surpreendentemente boas, consequentes de escolhas que fiz a pensar estar a fazer o errado.
Porque gosto de errar. Tento sempre que posso.
Há duas ou três coisas na vida que me podiam ter corrido menos mal se a minha mãe me tivesse dito o que fazer.
Mas ela sabe que eu preciso de experimentar tudo.
Por isso,
Deixa-me.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A beleza, o borderline e o sublime

Ver-te assim tantos dias, sem luz,
A casa a crescer com as pilhas de livros
Que espalhas em grandes montes há procura de uma razão
Que alguém tenha escrito para não te sentires tão triste
Eu não posso dizer que alguma vez possa ter realmente compreendido
O vazio e a dor que tento decifrar nos teus olhos
Porque me assusto e tenho medo de ir contigo também
Os teus olhos assustam
A tristeza é inegável
Antes era pior
Antes dos livros
O pior era quando as peles da tua cara descaíam para dar lugar aos olhos absurdos
Agora não acontece tanto
Deitavas-te com as peles descaídas dentro de 2 metros quadrados
Andavas, berravas, choravas
Porque todo o demais espaço era para ti um sofrimento maior
Não sei como nunca te mataste
Já questionei isso muitas vezes, em quê? 10 anos,  juntos amor!
E tudo acerca de ti
e não é possível ser de outra maneira
Também já me perguntei como nunca deixei de te amar
O amor parece mesmo ser assim, é amor, fica
Há quem tenha a sorte de o encontrar.
Dava tudo para que o Paraíso fosse a repetição infinita
Do amor que fizemos, das praias que molhámos com os nossos suores
Do teu sorriso quando te sentes amada por mim e por tudo o que nos rodeia
E como podes ser tão feliz nuns dias
E depois transformares-te numa deusa grega vítima de uma tragédia tão severa que
não há
Consolo que te sirva
E é essa a palavra, consolo mulher.
Onde e como te poderei alguma vez arranjar consolo
Tu és forte
Se não fosses eu nunca teria aguentado tanto
Volto a dizer que não sei como nunca te mataste
Depois recuperas doí menos e assim amas-me mais
Eu fico mais feliz
Na verdade ao escrever-te este poema, esta tentativa de carta solta
Apercebo-me que compreendo melhor todos os teus processos do que aquilo que pensava.
Sei quem és. Parece que vens de outra planeta, pela beleza e pelos jeito de ser
pela sensibilidade extrema.
Pelos olhos amendoados e pestanas longas,
Quando estás com as estantes arrumadas e cantas pela casa
O meu mundo é ternura
Os teus olhos são profundos e vejo-me a mim neles quando te aproximas
para me dares beijos no nariz.
Sem ser nesses tempos
Os teus olhos assustam
Transtorno de personalidade
Queria deixar escrito antes de te deixar
Que te deixo porque me venceu o cansaço de não seres bela todos os dias
E muitas das vezes em dias que precisava mesmo de ti
Não posso amar-te mais, não é útil para mim
A política, tu sabes.
Mas quero dizer a toda a gente  que me despeço deste mundo com uma certeza. Eu é que não sou tão forte como tu e não aguentei, tu sim, aguentaste-te até hoje, todos os dias.
E eu sei que continuarás a aguentar mesmo sem mim, meu amor.
Foram 10 anos de cumplicidade, terror e beleza sublime.

O que eu pretendo, é que toda a gente que leia isto um dia, saiba que eu não fui capaz, mas é possível viver com um borderline.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

eu e tu temos tantas dúvidas.

Eu estou contigo
para tudo

eu quero sofrer se for preciso
para estar ao teu lado
eu quero cuidar de ti sempre
como o meu ser precioso

só sei que se um dia não houver nada à minha volta
eu quero estar contigo

nunca há-de haver nada
e "haja o que houver eu estou aqui"

eu quero dar-te o que tu alcançares
do meu projecto
do que eu dou ou estou,
em que.








Eu gosto mais de mim à noite
mas é porque vou trabalhando

só não sei porque se tem de trabalhar
todos os dias

O pequeno almoço é tão bonito

Por exemplo
charros e gin tónico
eu pensava que era só nas bandas desenhadas

agora tenho eu que encher o copo às escondidas
não vão os outros perceber

Mas isso deve ser só esta semana.
E se eu alguma vez na vida tivesse escrito?

Eu escrevi
Não reler
Fases de muita coisa junta acho eu

...

E agora?
Os anos diz que não param
Vou dizer estas coisas como se fossem verdade
como antes fazia?

Quero encontrar alguém do outro lado do espelho.

Beijinhos à Alice

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Chamo-lhe passeio sociológico pela amplitude de cenários em tão poucas horas, tantas ruas e lugares.
As linhas de metro têm dinâmicas tão diferentes em cada cor. Paisagens e pessoas radicalmente diferentes. Culturas, formas de estar. Fui ao fundo de Lisboa hoje. Desde a Avenida de Berna, à loja do indiano no intendente, com legumes verdadeiros. Drogados, chineses, prostitutas, namorados, punks, indianos, erasmus, mães, raparigas de mini-saia, possíveis desempregados, patos e gatos. A babilónia. Feia e bonita. Mas assim, como é. Fotografia em movimento para nós que vamos com phones nos ouvidos.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

andar sozinho

começei a aceitar-me agora. agora. tenho 27 anos porra, porquê que ninguém me explicou isto antes.

aceito-me sou feliz.

percebo que sou perfeita e encontro-me feliz sozinha, e sim queria estar contigo para partilhar esta felicidade. mas estou bem sozinha, vejo-me , não me fujo. finalmente não dependo de nada e posso ser o que quiser então sinto que existo para sempre. hoje existo de forma infinita, expandida, hoje sei que existirei mais do que eu própria.

todas as emoções para trás, ali , no passado, parecem enganos.
mas até nisso eu tenho de perdoar-me
senti tudo o que senti
é porque tinha de ser sentido
o sentimento é tão bom que até a poesia se estraga.
mas não, a poesia também nasce do belo, também nasce da paz, também nasce da vontade de ser feliz nela própria.



Há dias em que desço a avenida e ligo a uns quantos amigos
Só um ou dois atendem
Tenho muitas coisas para dizer
E muito rápido
Gosto deles
Depois penso que de qualquer forma a descer a avenida não conseguiria falar com todos
Tenho muitas coisas para dizer

Depois tenho outros dias
Não consigo organizar as ideias
Não sei o que dizer
Não desço a avenida

Ou desço mas não me lembro de ligar a ninguém
não me lembro de ouvir música
não me lembro de porquê, nem de onde, porque tudo
ou não sei
não sei se sei ou sabia antes

Ou então desço a avenida
e vejo os outros, há pouca gente na rua
mas muita para o tamanho da avenida
ferem-me, fere tudo ao abrir os olhos
adormeço ou fico dormente

Agora
Estou a pensar como 
são diferentes as pessoas

São diferentes ao descer a avenida
cada dia,

Agora estou a pensar que Joana Baez 
É bom para descer a avendia
nos dias em que nos conseguimos lembrar de ouvir música
Vou ouvir agora

Youtube

Mas se não, só cinzento. (não costumo usar muito adjectivos)

Eu sei que sou eu que faço o mundo
Mas eu às vezes não consigo agradar-me.



o rio corre sempre é o que dizem


Se pudesse arrancar-te do teu peito
esse nó que te construí.

se pudesse voltar a dar-te a agua pura
que sempre bebeste e que eu te sujei.
se pudesse arrancar-te da cabeça
todas as palavras que infligi contra ti.

Talvez aí eu pudesse ter-te límpido
como quando te conheci.

O teu coração de cristal quente,
fundiu-se no meu.
E agora não sei como separar-me de ti
não sei como te encontrar
Estamos presos
Só uma mão divina nos recuperaria.

                                         7/1!2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Para a minha amiga Bárbara

É assim não é? 
Somos nós as duas. 
Eu loira, tu mais bonita. 
Cabelos a crescer, coração a crescer, juventude a crescer-nos.
Ingenuidade no peito. 
Reinvenção dos universos.
Chá quente em chávenas de infância.
Nós queremos só aprender tudo,
Curiosas, mais do que os gatos.

Para onde quer que fosses levavas-me nos teus olhos acesos, a brilhar. 

Temo que vás.

Mas sei que teremos sempre jardins enormes dentro, às cambalhotas.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Aonde eu fosse
Não me livrava de mim mesma.
Estaria sempre comigo eu a minha eterna saudade de quando eu era eu
E dos outros que diziam que tinham saudade de mim antes de mudar.
Não me encontro quando me penso
Mas acho que continuo a ser eu.
Aonde fosse tudo podia mudar
Outro que viesse só reflectiria nas minhas lágrimas límpidas quando eu era eu
A onde ir?
Mas nada disto foi hoje.
Hoje,
 O dia de coração aberto, sente-me, ele o dia.
Eu sinto o dia de forma tão mordente,
O céu chovia nas pessoas
Mas eu devolvia-lhe o sol.
Onde ir?
Não há onde ir. Estou aqui. Quero-me.

Só lamento ter pensado nela, a minha avó e não lhe ter dado um abraço.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Se eu te dissesse

Tudo o que te quero entregar
às vezes escorrega-me por entre os dedos,
quando ficam frios,
meu amor,
sabes?
as flores que me deste
são brancas,
eu vi.
mas que posso eu dar-te
quando o sol não me aquece?
queria puder  entregar-te tudo, sempre.
Eu sei de onde vieste,
queria mostrar-te para onde vou
para que me encontrasses se me perdesses.
Queria dar-te mais pequenos almoços
cor-de-laranja
e sorrisos de manhã.
Queria ensinar-te a nadar
porque não quero que te afogues
e eu sei que tu aguentas muito tempo debaixo de água.
Amanhã vou estar aqui com o coração em forma de livro
que tu conheces, onde tens escrito.
onde sempre escreveste
e onde sempre irás escrever.
quero dar-te tudo

dou-te o meu coração em forma de livro.

domingo, 31 de março de 2013

Só tu sabes
o quanto
eu não sei ser
feliz mesmo
quando vejo
a felicidade
de todas
as coisas
Amo-te
mas não é contigo que quero dormir
amo-te
mas não é contigo que posso fazer o meu futuro
amo-te
mas não é a ti que te vou poder abraçar todos os dias
amo-te
mas nunca te vou puder fazer o pequeno almoço
amo-te
mas por exemplo este verão não é contigo que vou à praia
amo-te
e
tu fazes-me tão feliz

mas é complicado
eu um dia talvez volte

agora tenho de ir ali
compreendes?

adiamos o nosso amor?
preciso da tua compreensão, é urgente.

E tu disseste:

- Eu compreendo, adeus.

Voltaste as costas e o meu peito caiu ao chão e a minha boca abriu-se sozinha e espetaram-se

na minha cara lágrimas como facas

e eu compreendi que não compreendi nada e tu compreendeste sempre tudo e deixaste de poder ser tu em mim porque se eu não compreendi nada não soube nunca amar-te.

mas amo-te.





Os pensamentos estão mais longos sem que demorem mais tempo, mas tudo parece dilatado.
Eu pareço uma extensão dos meus próprios pânicos.  Amarrotados.  Aldrabados , porque eu não os quero. Não me servem, nunca me serviram.
O que eu acho é que quero fazer de mim uma extensão de uma tarde de sol, ao pé da praia, mar de água quente.  Toda eu para sempre sem mim, propriamente dita , só cheia de mim mesma enquanto mar de água quente.
Nem sei se te trago a ti nisto tudo, nesta parte de mim em que deixo de ser para começar a acontecer. Onde estás e se quero que existas. É tudo isso.
Morrer quero morrer longe.
Ontem estavas aqui todos os dias.
Sou o pânico a transformar-se em pessoa.
Nem é no peito. Tu não sabes.
Eu queria que tu soubesses tudo e assim me provasses seres-me. 

sábado, 20 de outubro de 2012

Ela tinha planos longos no cabelo duas tranças era infantil o recreio dava-lhe vómitos a sopa entornava-se a torto e a direito as fotografias trespassavam-se todas para lá da realidade tinha gatinhos bebés o tempo inteiro projectava linhas vertiginosas a poesia deixava de acontecer ou ganhar forma os dias anoiteciam sempre as cabeças paravam para pensar a meio era tudo anormal ou fora do prazo tudo tinha um reverso agravado dores de garganta apontamentos mal escritos -que horror, não se percebia nada daquela letra. mas ela queria ser veterinária- estudar os exoplanetas.
Alguém lhe disse que ele estava apaixonado, não foi ele que disse, ele não se apercebeu, não se sentiu dessa forma. Mas disseram-lhe e quando lhe disseram ele compreendeu. Como compreendeu começou a agir como tal e aí ela percebeu que ele estava apaixonado e foi dizer-lhe. Disse-lhe. E ele acenou com a cabeça mas nunca o disse.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Descobri a origem da minha dor.
É querer ser tão verdadeira comigo como sou com os outros.

Lisboa

Lisboa

(Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa)

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 4 de dezembro de 2011

ilhas Galápagos

o meu primo está apaixonado pela minha prima Maria. estamos todos. eu estou apaixonada por ele. Canalha. é quase primo é quase irmão é mais paixão de familia do que qualquer Maria deslumbrante portuguesa e popular. directamente a ti queria dizer-te que o meu presente é o teu futuro, porque é em mim que te projectas, primo, não falemos mais de sexo nem da promuscuidade hoje porque a promuscuidade é a nossa garantia de para sempre. não há dióxido que te estrague aos meus olhos, o teu coração está na minha mão esquerda e o canivete do Spikles na minha mão direita, só tenho medo que te afogues. viana do castelo é a cidade de ficar e morrer e não a cidade de mudar. todas a vezes que sou pateta é na ânsia de te fazer feliz. uma vez pateta sempre pateta. hei-de estragar os teus planos projectados a dez anos, eu tenho a carta. a protecção, o azilo, é da tia laura. roubo-lhe isso. parto-te todo como tu no skate. o meu irmão quer casar comigo, mas sabes como ele é dificil comigo e fácil contigo. no final dos teus dias, estarás cego, mal ouves. nessa altura levo-te sim ao equador. Vais ter cinzas espalhadas nas ilhas Galápagos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

rapaz da praia

rapaz da praia
a tua vida é o mar

vem buscar-me ao trabalho
e fala-me da areia
fala-me do sexo precoce
deixa-me conduzir
e não bebas do meu copo
não discutas comigo
agora cresceste rapaz
e já não fazes armas de brincar

as armas existem mesmo homem excelente

o mundo não é o verão

não aguento o teu abraço
doem-me os ossos ao pé do mar

esqueces-te de ouvir rádio

o resto, tudo.

às armas!
que bom.

quando as pessoas aparecem nos poemas

quando as pessoas aparecem nos poemas
contaram-me histórias;

a mim e aos meus olhos
a olhar-me nos
olhos
com olhos
e disseram ele olha nos olhos

disseram

- há quem case na aldeia

desapareceram no meio da chuva
queimaram-me fósforos

deixaram-me cantar
porque preciso

eu espero por ti e sei que esperas por mim

[há tanta coisa que te podia dizer mas não sei se é necessário e depois o tempo perde-se e tudo o que dissemos foi tudo o que não fizemos e nós somos pessoas de fazer não sei onde é que és igual a mim não sei onde te atravesso atravessas-me no coração e ainda assim ficas-me entalado na garganta quando penso que podes não voltar decidir deixar de filmar e ir para a Patagónia fazer fotografias para o screen save do i pad ou postais de colecção por encomenda fico com medo como se fosse pequena mas nós somos pessoas de fazer e de procurar e fazer por não encontrar porque gostamos desse objectivo não fosse calhar-nos um objectivo daqueles que se cumprem de dia e dentro de casa sabes que seremos vampiros com tudo de bom que isso traga]

preciso de uma resposta.

terça-feira, 17 de maio de 2011

hoje representámos uma peça

tivemos três espectadores

comoveram-se com a nossa vida

acho que projectada ou retro o mesmo

na deles

nenhum era crítico

não sei se algum jornalista

fizemos sexo sem casar

no final lavrou-se a Acta

como nenhum era convidado

o iva não era sobre zero

em vez de palmas houve beijinhos

isso está tudo no público de domingo

uma artigo que começa

qualquer coisa empate técnico
depois
quando
encontro a
janela aberta
boa para cair
e me sinto
feliz
percebo
a sorte que
tenho em
ter-me
a mim e ao
meu corpo
à minha falta
à falta de melhor

o meu sexo
feminino
os meus lençois
brancos
um corpo que não adoecesse

uma gaja assim daquelas

que nunca perde a vontade

de foda

letrada claro

que não chorasse

que não tivesse dores de cabeça

virgula

outras

que sorrisse pouco

nunca

quando eu estou mal disposto

que fosse politicamente incorrecta

mas que não falasse alto

(não falar alto, muito importante)

olhos claros do cabelo não importa a cor

roupa rasgada e alfinetes

à noite

saia travada

de dia

que me agarrasse nele

mas que não dissesse asneiras

nas reuniões importantes

|grave tudo isto|

segunda-feira, 25 de abril de 2011

William é meu amigo
é meu vizinho
e tira-me fotografias

quando estou exausto
põe-me a cabeça em ordem
quando o meu amor desaparece
ele toca-me no pénis
e fala-me sobre o governo sueco

devo a William inúmeros favores
espero que ele não desapareça
como desapareceu ontem
o meu amor
e a minha avó em 1895

se o meu amor voltar
vou apresenta-lo ao William

acho que não volta

ela era muito bonita

hoje vou deixar que o
William
William
William
William
William
William
William
William
me toque no pénis

terça-feira, 12 de abril de 2011

já não gosto de chocolate
café de manhã
e mal entra a torrada
antes eram duas
durmo mal e sonho muito
trabalho bem e rápido
não me drogo
não bebo cerveja
não me masturbo de manhã
não telefono aos meus amigos emigrantes
não tenho agenda e as notas andam nos bolsos
não troco de sapatos
não apanho sol

nunca nunca menti

A Alice explicou-me que não interessa a direcção que se toma se não se sabe para onde se vai

segunda-feira, 11 de abril de 2011

olha rapaz, diz-me o que se passou no convento que eu não conseguia ouvir-te falar sem suar das mãos e pensar em beijar-te com muito medo como quando era pequena e achava que devia fazê-lo mas metia-me impressão mas porque não me roubaste tu um beijo ali no convento tanto calor parecia o calor das freiras a rezar no verão mesmo dentro da igreja eu agora estou diferente porque as cidades mudam-nos ainda mais do que as estações do ano e as estações de comboio e tu sabes que me inspiras e é isso que eu gosto em ti mas olha rapaz como eu estou diferente se me roubasses agora um beijo eu contava-te tudo sobre o meu namorado e como ele vive no méxico e mesmo assim eu só penso nele e nos ombros dele e nos vinis dele e nos The Cramps roubados mas se me levasses a viajar sem destino temporal e sem destino espacial assim de carro assim com música assim a ficar tonta como no alentejo no verão por causa das cores eu não sei onde acabaríamos e é mesmo isso que eu tenho medo de saber porque só no carro senti que não tinha fim e o meu namorado do méxico vendeu vinis para juntar dinheiro para vir ter comigo e tu não. O que fazes a 27 de Maio?

terça-feira, 5 de abril de 2011

eu sinto-me afastado gradualmente afastado afastado de ti mariana vou dar-te um gato e quero que lhe chames Yegor queria que viesses viver comigo num sétimo andar fodia-te bem todos os dias e obrigava-te a dormir despida esta era não é a era do gelo tu és tua como eu sou teu o tempo todo senta-te ao meu lado no sofá e fala-me do que tu gostas de falar das comunidades e de como devias ter estudado sociologia a minha atracção por ti começa no pensamento e antes os dois estávamos doentes agora tu está curada e não sabes como me dizer quem são os outros é quase maio sempre que te amo ou coisa parecida mas tu não escreveste o meu nome nos muros e agora resta a angústia dos muros vazios e um livro sobre ti e sobre como pousavas sempre os anéis na cabeceira em maio devias trazer contigo o gato e os livros de sociologia e fazer-me sumo de laranja de manhã [se o sol entra]com os olhos verdes se os teus olhos são verdes mariana temos pouco a perder

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Deviamos ter passado a vida a escrever em
muros todas as frases graves que nos ocorrem
quando estamos sem fazer nada
e assim sempre que estivéssemos
sem fazer nada estávamos a escrever em muros

eu gosto quando estamos sem fazer nada
e as nossas cabeças estão vazias

(damos a mão
um beijo de olhos fechados
e não há frases graves que tremam as mãos
que temam a sociologia
que me afastem de ti em fracções de segundo
e me digam para viajar sozinha)

tu estás sempre lá
eu às vezes não estou
quando não estou tento tomar banho
e espero que a ausência passe

mas nem tudo é mau em ti
gosto das tuas mãos
e não consigo respirar quando não estou ao pé delas.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

assalta-me a ideia do incêndio
nem a chuva a apaga

[à ideia
ao incêndio]

qualquer eucalipto por mais recordações

[de infância]

que contenha
é consumível a velocidades esmagadoramente vastas

assim sou eu

eucalipto

cigarro

copo de vinho

poucas palavras

imensuravelemente gelada

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

el país

Não me apetecia fazer outras coisas então estive a fazer traduções de artigos do el país de 1976 estão mais ou menos envio-te por carta juntamente com um postal do monte evereste soube-me bem tivesse eu três dicionários e deliciava-me em traduções tivesse eu um quarto nome e traduziria do latim para o francês pequenos textos só para te oferecer pilhas de livros a tapar o sol que às vezes entra pela janela tivesse eu outro amor estrangeiro e falaria mais de duas línguas se chover quero estar contigo menos corpo e mais palavras que te sentes no chão e chores para dentro do café porque eu te leio histórias.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

não posso ir ver-te a paris, nem mesmo a madrid

é por isso que me deito com todos os homens que me sorriem

é por isso que não vou às compras nenhum dia da semana

é por isso que escrevo notas de afazeres no meu caderno

não posso ler-te um parágrafo deste livro
nem cheirar-te os sovacos
nem conduzir o teu carro
nem cantar-te ao pequeno almoço
nem fumar os teus cigarros
nem beber golos a tua cerveja
nem esmagar-te quando me enervas
nem olhar para os teus olhos através do meus

não gosto de ti longe

tenho de te inventar todos os dias

é por isso que me apaixono tantas vezes

por ti

mesmo assim choro

porque o que mais me custa é que consigo dormir quando não estás ao meu lado

terça-feira, 12 de outubro de 2010

eu gosto da minha mãe porque ela manda-me queijinhos pelo correio

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

não costuma acontecer
a pornografia enjoar e tudo

o sexo é forte
e a cama é grande

e se tiver de gravar alguma coisa
será à capela
para sarar a voz

o enjoo não desaparece
e ainda por cima levanta-se alguma poeira

fica na janela a roupa mal estendida
e no chão a mal lavada

e eu vou deitar-me amarrotada
e dar beijinhos na minha mão

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

os teus ombros

o que eu sinto por ti é assim mais ou menos muito forte mas tu és mais bonita do que pareces nas fotografias e por isso gosto mais de ti quando olho para uma fotografia tua e a tua beleza não me atrapalha e consigo ver-te despida das tuas expressões todas essas expressões como quando fechas os olhos e balanças os ombros e levas as mãos à boca porque és viciada e tremes as duas pernas a velocidades parvas porque és nervosa e brincas com o cabelo e piscas os olhos a fingir que tens uma pestana a incomodar-te só para eu olhar com mais atenção para os teus olhos tudo isso é de uma beleza tão espantosa que não consigo olhar para ti e ouvir as coisas que dizes ou as músicas que cantas sem me atrapalhar e se tu coras eu sinto o meu sangue engrossar-se nas minhas veias e sinto o suor nas minhas costas ou em qualquer outro lado e um vento gelado na minha cara porque vejo foda-se como és frágil e como te posso foder e sentir-me muito forte e tu frágil nas minhas mãos a pensares um dia que me amas o outro que me achas patético e eu a saber tão bem que tu tens um principio um meio e um fim que é sempre tão igual e eu só tenho de esperar que passe porque foda-se porque te apaixonas tão facilmente

é nesses dias em que estás sentada a ler ao pé da janela que sinto necessidade de olhar para as tuas fotografias e não pensar em ti sexualmente e até me acontece às vezes querer escreve-te umas palavras novas algo novo algo que te possa dizer que nunca tenha sido dito por ninguém e que te faça olhar para mim não como um idiota mas como o gajo que decidiu apaixonar-se pela forma como balanças os ombros e eu deixei de te tirar fotografias porque queria aprender a não me atrapalhar com a tua consciência de pormenor e de sublime na tua fragilidade idiota

e pronto estou a dizer que fomos os dois idiotas e devias ter apanhado o avião para matarmos muitas saudades e não teres de foder outro.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

paisagem

era uma vez um dia cheio de paisagem e quando falo em paisagem falo no prado verde ou no vale denso ou no pomar no outono e o dia cheio de paisagem coube nos meus bolsos e nesse dia consegui levar-te a ti e ao dia para a minha cama e só mais tarde se tornou agradável o incêndio atrás do meu prédio e só mais tarde te compreendi sem pequeno almoço ou beijos de manhã só muito tarde envelheci na paisagem dos teus olhos só tudo muito tarde me demorou no domingo a chegar triste ao lugar de dois

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A FALTA QUE ME FAZEM

(José Carlos Barros)

Os meus amigos são tão poucos e às vezes
um a um quase me esqueço de lhes dizer
a falta que me fazem como quando por
exemplo numa sexta-feira à noite eu entro no café
e a cerveja nem me sabe nem
o caralho.


A alegria é cada vez mais com a passagem
dos anos essa ave rara que só
numa corrida com os
filhos num bosque de bétulas ou
numa tarde de domingo a desenhar com
eles um satélite ou num passeio à noite
na areia molhada da praia nas marés do
equinócio de forma imprevista verdadeiramente
pode visitar-nos.


Mas esta de que falo só com os meus amigos e
é inominável que dizer dessa paz imensa
dessa felicidade quase sem imagens que é
sentarmo-nos à roda de uma
mesa e nem dizermos nada.


Os meus amigos são tão poucos que é quase um
crime separarmo-nos assim deixarmos que às
vezes um número de telefone um círculo vermelho
a marcador no mapa do acp
uma carta sejam o mais que pode trazer às
nossas vidas essa ilusão de pertencer-nos o
mundo todo de não haver uma mulher uma
estrela uma cidade que não sejam
nossas para sempre.


Os meus amigos são tão poucos tão imensos que
às vezes apetece-me deixar o computador ligado
a meio da tarde meter-me no carro pagar
a portagem da auto-estrada permanentemente em
obras de conservação e procurá-los com
a agenda aberta nos seus nomes acordá-los
antes da alba só para lhes dizer
a falta que me fazem.


José Carlos Barros

quarta-feira, 5 de maio de 2010

corpo válido ou validado

e foi assim que ela depois
foi assim
foi andando
foi dizendo
desdizendo o que lhe disse
não devendo ter dito
amanhecendo mais fora de casa
perdendo raízes
fazendo valer
emudecimentos
sem perdas
sem lágrimas
foi assim
assim que deixámos
partimos
morremos pela metade
refizemos a falta de amarguras
dedica-mo-nos
devíamos ter-nos dedicado sempre
a isso
a esse assim
que foi andando
e ela sozinha
nas ruas grandes
cheias de gente
foi assim
amanhecendo mais fora de casa
e embora devamos
todos separar-nos um ou outro dia
valem-me agora
sempre valeram
foi assim
todas as tardes
em que valeu o passado
válido por ter passado
por estar acabado
por não me existir
não me caber
vale a minha janela
vale o meu corpo
contra ela
contrariado ou não
mas controverso sim
e apaixonado sim
pelos sons
pelas palavras menos doces
dos meus cinco anos
decadentemente encontrados
agora à porta da minha casa
mas transformados
na fantasiosa
fita que fiz
feliz
menos desfeita
mais fazedora
fatídica noite de sorte

e eu estou nua
e a noite está quente

bebamos este copo de vinho

vim-me

segunda-feira, 19 de abril de 2010

às vezes é assim e não tenho mais nada para inventar
e sabes que uns dias me apaixono por ti
ou por um vulcão ou por qualquer outra coisa
e outros dias faço história

mas na maior parte dos dias sou só eu
e a vontade de sair para a rua
desculpa-me por não fazer por te amar todos os dias
mas estou muito pouco interessada nisso
bem como no resto das coisas que se contam porque são quantificáveis

If I was the Grand Canyon devolvia-te gaivotas ou assim
mas eu sou só eu, sou apenas eu
e eu nem sequer usei limpa móveis este ano
(porque há coisas que me esqueço,
não quer dizer que sejas uma delas)

mas gosto muito dos meus móveis e gosto de ti
e sei que quando acontecerem coisas elas vão reluzir

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quero provar a minha existência a Deus
a vontade de foder é um poema do caralho

domingo, 11 de abril de 2010

Ele é alto e magro

Ele é alto e magro
E não entende nada de burocracias
Quando crescer vai ter uma secretária privada
Para organizar os dossiês com etiquetas anuais
Quando era pequeno tinha uma casa grande com piscina
Agora dorme num quarto com beliche
E toma banho uma vez por semana

Nunca declarou irs

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A minha mãe escreveu-me uma carta

pergunta se tenho usado amaciador
como está a mialgia dele
se comprei pão esta semana
onde vou estar no domingo às quatro
a que horas chega a anabiose dos outros
se corei com as palavras do rapaz da livraria
se sempre me vou mudar para o sul
se cresci mais esta semana
se o tétano se vacinou
e quantas vezes morri de amores diferentes esta semana

-nenhuma

quarta-feira, 7 de abril de 2010

vou ter um dia magnifico. amanhã.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

METEOROLÓGICA

(Adília Lopes)

(para o José Bernardino)

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

ECLESIASTES

(Adília Lopes)

"Seulete suy et seulete vueil estre
Seulete m'a mon doulx ami laissiee"
Christine de Pisan

Tempo de foder
tempo de não foder
saber gerir
os tempos
compor
saber estar sozinha
para saber estar contigo
e vice-versa
aqui estão as minhas contas
do que foi

suplementos vitamínicos

tememos mudos o mundo que emudeceu as palavras que atiro da minha boca e que atiro da minha boca contra a tua a tentar não temer o que tememos demasiado e que tem pouco a ver com morte mas podia ter tudo a ver com o fim da vida da tua e da minha e não ao mesmo tempo nem no mesmo espaço e os meus cabelos brancos são mais belos do que os teus porque eu sempre fui melhor pessoa e sem me esforçar por isso porque se me esforçasse por isso acabava num convento de freiras e seria beatificada protagonismo que eu não quero para a minha pessoa eu nem sequer conheço muitas orações e as poucas que conheço foi a minha avô que me ensinou e a minha avô esta muito preocupada com a minha falta de namorados mas isso deve ter a ver com aquela pergunta que as pessoas me fazem muitas vezes -vais sozinha? como se ir sozinha de são domingos à rua de aveiro fosse perigoso ou triste ou algo pior do que isso eu nem preciso de ouvir musica para encontrar prazer numa caminhada de mãos dadas comigo mesma mas talvez por essa razão um dia acabe deitada na cama a chorar à noite porque já não consigo fascinar-me com meteoritos agora a minha mãe quer voltar a lavar-me a cabeça e esfregar-me as costas com sabão azul porque diz que não sei cuidar de mim e obriga-me a tomar suplementos vitamínicos porque diz que tenho os olhos baços e como é impossível isso ser de tristeza porque eu sou uma pessoa muito feliz ela conclui que deve ser da minha péssima alimentação nunca gostei de fígado hoje estive na praia com uma família muito grande e senti-me decrescer mas se eu decrescesse e voltasse a ser criança e a aprender a nadar estaria tudo bem mas como decresço e não sei para onde vou começo a achar que tenho um problema e talvez os olhos baços não sejam só por não gostar de fígado mas também não conheço nenhum doutor a quem possa escrever uma carta e perguntar-lhe o que acha da falta de vitamina b12 eu também não me importo muito com as coisas que os olhos dizem mas o meu pai ontem até me disse que eu tinha os olhos brilhantes e achou bem

eu é que reparei que ele tinha os olhos tristes mas não fui capaz de dizer nada e pensei fugir
e fugi

sábado, 3 de abril de 2010

amor barqueiro

De todas as vezes em que em tão pouco tempo pensei deixar-te esta foi a vez em que mais te deixei e embora não pareça que te tenha deixado deixei-te demasiado porque não podemos ter tanto alguém por tão pouco e eu que gostava de amores que andam de barco agora tenho muitos amores um em cada porto para que me socorram antes que eu me afogue nas paixões intrínsecas que me dêem as mãos e pouco mais qual Lídia sentada à beira rio mais pagã do que inocente deixar-te-ei mais do que te deixei até hoje e em tão pouco tempo se não me encontrares antes de eu me deixar cair e levar pela corrente e para o meu amor antigo todo o contrario talvez a corrente me leve a ti deixa-te estar nessa margem e talvez eu já chegue grávida.

domingo, 21 de março de 2010

Toma as fotografias
Toma o telefone
Não toca
Toma-o
Toma o sexo
É teu
É o que é mais teu
E o que menos preciso
Toma as obras do 3º andar
Toma os sorrisos forçados
Toma o meu papel
Tomas as minhas cassetes
Toma os meus medos ou receios ou assim
Toma os meus remédios

Não me tomes
Não me tomes como certa.

domingo, 14 de março de 2010

tenho umas quantas boas coisas para fazer
cheira bem e fico contente a pensar nelas

há escrever uns textos, uns assim bons

há ler um livro, um magnifico

há passear-te, ao pé do rio, Belém

há visitar a mãe e o pai, Ponte Eiffel

há comer bolo de chocolate, qualquer lado

há não fumar com o bom tempo, assim fosse

há ler aquele livro, o magnifico

há comprar um filme, um que tu aches

há ouvir mais rádio, só uma estação

há cortar a relva, jardim público

há revelar fotografias, as más

há estudar, matérias perdidas, enfim

mas depois perco todo o tempo a cheirar as tuas pernas

sábado, 27 de fevereiro de 2010

chegámos tarde
muito tarde
(depois das tristezas)

e se há coisas que aprendemos
é que os erros ortográficos
até se podem tornar insignificantes
se fazemos coisas de amor
cheios de sono
e com afundações de trabalho

se dissemos as palavras erradas
foi porque não as havia certas

são mais ou menos onze
e não me perdi
e mesmo assim sou muito tua

a cerveja sabe-me bem
e o vento não me incomoda

contemplo estações
contemplo comboios

guardo na minha gaveta
um monte de textos
de alturas em que fui menos eu

deito-me com pouca política

mas deito-me com o coração apertado
num sentido bom e não num sentido mau

a cerveja sabe-me bem
e tudo é bom de exisitir

não preciso de ler poesia
para me comover com as mudanças de tempo

e não é a chuva que me fecha em casa
e não é sem mim que me encontro

e é comigo que me deito
e é comigo a música
e é comigo o sumo de laranja
e é comigo o assobiar
e é comigo o eléctrico
e é comigo o último fósforo

e é para ti o meu comigo
mas só as vezes suficientes e saudáveis

e a cerveja sabe-me bem
e o vento não me incomoda

e agora meto-me no carro
e deixo-me adormecer sem ver os cometas

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

23 de fevereiro

Aquelas horas em que tardei
nas minhas próprias emoções
foram muito boas horas para encher os tempos de esperas
e as esperas de tempos
e intervalar música nos pensamentos apaixonados
assim melodramaticamente
e depois com o passar do tempo
a verdade é que volto ao futuro
não mais velha e não mais cansada
e não mais farta de mim
e muito feliz de outros
e muito pagã no inverno
e todos os dias um pouco de catarse
seja em sexo ou em chuveiros
e a cidade é tão decadente
e foda-se bonita nas
horas tristes
e eu tantas vezes desato a correr
e nem tenho um peso nas costas
e até desço as escadas rolantes aos trambolhões
rumo ao muito agradável inferno de dante
e é muito simples a forma como tu pedes um café
e levantas as mãos para explicar uma memória
mas a verdade
é que me chegam sempre as lágrimas aos olhos nessas alturas
e até esqueço o surrealismo do carnaval
e até acho a morte bonita assim de repente
e até aceito viver
ou até quase posso dizer que compreendo
o viver e o sentir
mas claro que não
e é só uma canção e no fim batem-se palmas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A tarde parece melhor
só porque se compra
a dois

um livro da assírio & alvim
parece que inspira
ou pelo menos modifica
uns quantos poemas levianos

recuperados da gaveta

assim de repente tornados bons
se não pela forma
se não pelo conteúdo

pelo passado
pelo já passou
pelo não volta mais
pelo envelheci
pelo olha a saudade
pelo a seguir não sei

pelo se não morrer hoje
vou ser de certeza feliz
contigo naqueles textos

a seguir não sei
mas nas palavras cristalizou-se
e parece bonito

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Apetece-me cinco mil
mas é de muito menos
que se faz o meu dia
Ontem à tarde
vi-te guardar
todas as coisas
podres
que me pertenciam
e não pareceste
incomodado
e foi por isso
que eu te amei
naquela meia hora
no café
mas tu sabes que
não posso gostar
tanto de ti todos
os dias
Estava a pensar
em ti
enquanto imaginava
que andava
de autocarro
e vi-te passar com
cara de pessoa
sem sorriso e
lembrei-me que
és a pessoa que
gosto mais vezes
de todas as pessoas
que gosto
mas o mais
inconveniente
é que me fazes
gostar de mim.


é quase inverno

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Desta minha idade
onde cheguei
do que sinto saudade
é da emoção clara das coisas.
Hoje corei por dizer a palavra poema
e já durmo sem política há quase três anos.

Preciso de namorados novos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

tenho algumas canções
tristes para
te cantar um dia
em que não me morras

terça-feira, 16 de junho de 2009

hoje sonhei que sonhava
que havia muita gente à minha volta
deixa-se as crianças
apanha-se fruta
de pés descalços na casa da Joana
toma-se banho na praia
e acorda-se
com as ondas a baterem nas costas
em forma de para sempre
os gatos miam como se chorassem
as escolas fecham
o céu fica alaranjado
tudo o resto é branco
não existem casas
nem montanhas
nem paisagem de nenhum tipo
perde-se alguma gravidade
é assim
como que falta a direcção
fico entalada
esqueço os verbos
vou-me sentar naquele canto
gostem de mim
deêm-me abraços

domingo, 17 de maio de 2009

Amigos e convivíos noves fora
Sobra um
preciso de saber se ainda és o mesmo
não tenho paciência
eu estou longe de casa
não me quero casar

sábado, 16 de maio de 2009

Entardeci
deitada no sofá horas muitas
Que bom
é estar sozinha
quando
o mais que se precisa é música

segunda-feira, 27 de abril de 2009

não saber se compre os cravos
ou se os apanhe do chão

em todas as portas a que bati:
menos

eu cresci
e gosto pouco
o meu irmão preocupa-me
e o meu pai também
a minha mãe precisa de uma vida nova

eu estou fugida
e nem sei de quê

e o minho nem sei de que maneira me faz falta
o alentejo também me emociona
lisboa não chegou para a saudade
barcelona é outro lugar

e eu sou assim

e ainda bem que elas
ainda são ingénuas o suficiente
para se encantarem com os astros
e com os satélites naturais

e com os defeitos
enumerados por uma criança
acerca de um adulto

ainda bem que saio pelo portão
e ouço com coração
as mágoas das velhotas tristes com os políticos

mas chego a casa e a cama é sempre a mesma
precisava de beber uma boa àgua

talvez durma bem
se dormir
cresci terrívelmente

tenho medo

e o mais que faço é vestir-me de vermelho

tão pouco

o que me acabará?

a sede

a fome

o sangue

o sorriso

a terra acabar-me-á

sexta-feira, 24 de abril de 2009

se não foge o meu corpo e é verão
fujo eu
vejo-me fragmentada no chão da cozinha
e a roupa encharcada a colar-me ao chão

deixo-me ali sem olhos ou pulmão
e desço as escadas até ao pátio
apanho uma laranja
subo desta vez pela escada de incêndio
como a laranja
e

(ela atira-se, mais uma vez, da janela)

sábado, 18 de abril de 2009

Para ti em Abril

era uma semana demasiado pequena
era um dia demasiado grande
era uma tarde vazia de rolos a preto e branco
(concretamente
digo pouco,
para quem pergunta
digo muito)
quero dizer-te algo mais
que não seja foda-se que saudades

as palavras têm-me falhado em todos os minutos
as mãos suam-me mais agora
não quero o médico
que sei que preciso
não quero o médico

também é uma falta de hábito
não deixou de haver emoção
nunca
mas passei a atirá-la ao rio pela janela

sabes

vejo o rio do meu quarto.

agora me recordo
este percurso agrada-me
obrigada por perguntares.
Agora tenho
uma nova
máquina fotográfica
Anda sempre
comigo no bolso
Na ânsia da eficácia
das minhas mãos
sobre as tuas
no acto de te
querer apanhar

domingo, 15 de março de 2009

a minha mão estendeu-se à procura da palavra fundamental que pudesse usar em forma de acção com eficácia.inventei as idades e se chorei foi por me lembrar das coisas como as via quando era criança e saber que a sensibilidade é possivel mesmo quando se tem cinco anos.ora se a sensibilidade não se perde com o sabor a morte na boca,então cresce e se cresce a esperança para ti e para mim ainda é alguma.mesmo assim descalcei-me para sentir os vidros nos meus pés adultos e a natureza esqueceu-se de mim e fiquei grávida mas não foi de bebés.o que carrego?é um peso.

-São pedras senhor.

No outro dia Deus morreu.

sábado, 7 de março de 2009

no fim do rosto

nos cotornos
do teu rosto
vi toda a minha vida passar
onde serás e quem e como
se não me agarrares a cintura
quando eu brinco nos passeios

olhas para mim e já não vês beleza
não me desenhas quando eu me enrolo na cama
não sorris quando te faço sumo de laranja
não choras como um bebé quando eu te deixo

deixas-me

porque sou eu o bebé

estive meia hora na sanita
fiz tanto xixi como fabriquei lágrimas

mas o pior foi o pavor em forma de berro
e depois o outro pavor em forma de berro
como se não houvesse vizinhos
nem amanhã
e a terra não rodasse em volta do sol

o meio peito incendiado
quero ainda assim dar-to todos os dias

todos aqueles em que me deixas
dou-to de faca e garfo se quiseres
o meio peito incenciado.

e de uma maneira ou de outra,
quero dizer-te, todos os meus poemas foram para ti.

I'll be your mirror

(Lou Reed,1967)

I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you

I find it hard to believe you don't know
The beauty you are
But if you don't let me be your eyes
A hand in your darkness, so you won't be afraid

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you

I'll be your mirror
(reflect what you are)
catarina
correu
tudo bem
mas eu
agora sou
mais pequena

sexta-feira, 6 de março de 2009

parti num barco sem remo hoje logo a seguir ao pequeno almoço e esqueci-me de levar escova de dentes mas como não conto sorrir penso que não será um problema ao final da noite já estava afogada antes de morta e tu quando chegaste a casa e me viste neste estado nem me beijaste como se beija um pessoa e agora que olhei para trás vejo a dificuldade que tenho em encontrar-me a cada três meses
destes últimos anos de mim só resta um pequeno quarto mal iluminado a tua presença sem voz no fundo da cama e o meu peito aberto em fogo confuso com a felicidade o viver para sempre e o morrer amanhã.

domingo, 1 de março de 2009

Fuga I

Fuga II

nunca se fica em casa
depois a vida acaba
e morrer na estrada
é melhor que na cama

mesmo que me doa uma pestana
ou uma unha
entendo que devia engolir a asma
e matar-me assim sem ajuda do doutor

mas porque mudaste os comprimidos?
agora não aguentas o pólen
de qualquer forma adoro os teus espirros

canhões tenho-os preparados
mas na ponta pús-lhes flores

se te assassinar será de amor

prefiro ser eu a chorar
antes eu que tu

se retornar
quero-me igual, doente

e a ti
quero-te curado

sábado, 14 de fevereiro de 2009

chegar a casa e perceber que é primavera
e sentir-me feliz e triste de forma tão sobreposta
respirar a plenos pulmões
e querer chorar de emoção por não saber o que me falta
desarrumar o quarto e sentir-me mal nele
querer sair e não saber para onde
sentir-me viva de sangue e de sexo
mas não querer estar com ninguém

discutir politíca
e o mundo ficar na mesma
e eu a mesma no mundo

gostar de alguém
e não saber como nem onde nem porquê
não gostar de ninguém só porque sim

não entender nada de matemática
mas querer entender o mundo

é o que penso nos meus aniversários

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

20.59

é ao lado da tua dor de cabeça que se situa ali no telhado que eu vou fazer de conta que tenho uma insónia pelos males a que assisto todo o dia nos dias todos a verdade é que ando a dormir na forma e tentei ler enquanto tu estavas drunfado a benuron mas só um olho é que abria por isso fui passear para os lados da abelheira como é lógico fazer-se quando se sofre de insónias e pelo caminho encontrei o meu pai que é muito experiente nestes assuntos de viver só de preocupações e dormir só de dia para não encontrar muitas pessoas uma vez que o mundo infelizmente está cheio delas mais do que elas cheias do mundo não ousei pedir-lhe conselhos não fosse ele mandar-me para casa dar utilidade ao meu tempo livre organizando a reciclagem ou o lugar das ferramentas então voltei para lisboa em três passos largos e deitei-me em cima de ti assim como um peso morto com intenção de te acordar para me dares um beijo ou outro e desmentir aquela história da insónia na realidade só queria estar acordada porque enrolei umas frases bem bonitas dentro de plasticina e atirei-as pela janela e agora dava-me jeito que tu as fosses buscar porque eu não gosto muito da fotografia das traseiras sabes que tenho esse hábito de ceder aos meus instintos e quando me arrependo de determinadas atitudes gosto sempre que sejas tu a resolvê-las porque mesmo que não entendas os meus motivos dás-me sempre um ou outro abraço daqueles em que pareces mesmo gostar de mim da forma como é preciso gostar de alguém para se compreender frases enroladas em plasticina e ainda por cima atiradas pela janela isto até parece uma metáfora mas claro que não é e obrigada por trazeres de volta a plasticina e olha as frases eram para ti espero que gostes delas e que as uses e agora podes voltar a dormir mas por favor não tomes mais benurons eu vou fazer castelos e brinquedos para crianças carenciadas parece-me mais útil do que organizar o lugar das ferramentas e não te preocupes que eu faço a vígilia do teu sono porque afinal fui apanhada na minha própria mentira e a insónia é verdadeira.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Joana

ela é morena
usa chapéu
e é Alentejana
eu tenho dúvidas
ela também

ela é tão bonita que até chora
quando se olha ao espelho
eu sou amiga dela
gosto de compreender
os maleficios da beleza dela
ela compreende as minhas tristezas
ela compreende o amor
e compreende a forma como eu falo
do meu amor

ela compreende
e diz mesmo pela boca dela
que a tristeza é toda feita da mesma matéria

e compreende que somos tão cheios de nós no amor
a dois
como somos vazios dos outros
nos dias em que aparece a tristeza
que é sempre a mesma
e que nem se extingue com a felicidade

e isso é sim num dia
e não no outro

mas ela é bonita todos os dias
delicada
lava-se com sabão azul
porque aprendeu o amor num dia sem núvens

e eu gosto tanto dela
que acho que um dia destes
vou mesmo sobrevoar as oliveiras
para encontrá-la a sorrir
em cima do caramachão do Convento do Carmo

extasiada,pela vida de quem a sente

a vida é deles
eu só passei.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

cães febris

quando bateste à porta
querias mais ver-me doente
do que louca

mas louca é que me encontraste
pedi-te para me trazeres gatos
senão gatos pelo menos peixes
e tu, não entedendo, trouxeste cães
cães febris
desses que se por um acaso mordem
nos deixam com uma infecção lixada
e os cães febris eram mesmo maus
e claro que me quiseram logo atacar

da mão mordida até ao osso
depois desinfectada
e pálida pelo betadine
sobrou um aceno
desses fracos
cheios de lágrimas
de quem vai devolver algum crómio à terra

e tu sorriste
estavas feliz apesar de tudo
eu estava
enferma
pálida
cheia de peste
e morri-te nos olhos
vezes sem conta

mas tu estavas feliz
e depois de me cobrires de terra
foste passear os cães

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

podes sentar-te
na linha da água
e ver o barco virar
podes descer
a cidade
na linha dos nossos corpos
do meu doente
do teu ferido
podemos sempre
descer ruas ou avenidas
a três
a quatro
a cinco
mas a tua voz
nunca será ouvida
nas praias do sul
e eu hei-de sempre
ir morrer numa praia do norte

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008



















Paula Rego

convenção final

se a chuva cai na tromba
cai na tromba

aí aí aí
que me doi o ano velho

podes olhar para mim
olha
que eu deixo

mas não vou contigo para o ano novo
só coisas de passado me interessam

deixa-me na cama

vai tu percorrer trilhos mistério
vai tu de calções desportivos
ser aventureiro

eu com a idade
estou pior da perna
e só quero mesmo
tipo beber vinho tinto
e tipo dançar tangos
e ouvir músicas de amor sadomasoquistamente

ser assim tipo



a serenidade, entendes?

é a serenidade.



o que estou a tentar dizer
na verdade
é que estou triste
e quero que me deixes sozinha.

domingo, 28 de dezembro de 2008

dos teus olhos
pousados na cama
resto eu
pálida
de um café que pedimos e nunca chegou
tenho
o teu tempo
no meu pulso esquerdo
mas quero dar-to

(2005)

tempo no meu útero

de ti,
são as minhas unhas no meu útero.
as tuas coisas estão guardadas no meu útero,
lá enterradas.
abre este caixão,
o meu ao lado do teu, meu,
de todos os que gostamos.
gostamos.gostamos.gostamos.gostamos
um do outro na banheira,
àgua quente,o tabaco,o sexo,
gel de
banho de ti,
quero todos os
dias,semanas, meses, anos,
todo o tempo no mundo,o meu, o teu, o nosso.

(com palavras de Ivo Borges, Abril de 2005)

Os dias contam-se

Os dias contam-se
Rápido se formam e a seguir se desfazem
E até sabe bem a primeira chuva
Vejo-a da janela, o dia cinzento a pedir sossego
A pedir família.

(2004)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

pai

para que não percas a cabeça
em sobressaltos e pensamentos insistentes,
dou-te estas páginas para que escrevas
e desenhes imagens mentais.

(2006)

mãe sem filha

não há lágrimas piores com mais dores na garganta e aperto no coração e falta de ar do que as lágrimas pela família os assuntos mal resolvidos os ciúmes os desacordos o querer que fiques e deixar-Te partir o querer deixar-Te partir mas querer mais que fiques o querer ter um bebé e quantas em quantidade são as saudades que tenho de quando Tu eras um bebé

e eu de quando Tu me tratavas como um bebé podia gritar por Ti se tivesse pesadelos de noite eras Mãe eu era Filha agora vou sozinha ao médico e às urgências nem sequer me medes a temperatura

e eu de Te tratar como um bebé podias gritar mãe se tivesses pesadelos de noite e eras Filha e eu era Mãe e agora vais sozinha ao médico e às urgências nem sequer te meço a temperatura

e deixares que eu emigre

e deixar-Te emigrar


e estares velha hoje a morte chegou-me e foi por ler o passado e o medo nem me deixa dormir e nem penso mais em cerveja nem no amor e ainda gosto mais do pai do que de Ti mas se gosto mais do pai logo sinto quantidade tal de saudades Tuas que penso que gosto mais de Ti e de repente fico aliviada por me lembrar que não é coisa para se decidir
que foda isto de ter de Te enterrar

que foda isto de teres de me enterrar
Tu precisas de tanto e tantos assim não Te aguentas
dêem-lhe amor coitada
e estares assim tão jovem quase velha tão mais feia tão mais magra que gorda a ler o passado e deixar a morte chegar-Te ao tutano no medo do medo


cantavas tanto perdeste o pio querias um filho meu que fosse Teu neto mas eu quero que continues a cantar-me “naquela linda manhã” e eu estava mesmo a brincar no jardim e Tu chamaste-me mesmo e disseste-me assim “não andes só a correr tropeças sem querer se cais ficas mal” e eu que tão prontamente “respondi pronto está bem depressa porém esqueci-me de tal” lembro-me depois como foi “tropecei caí no chão no joelho” muito mais que um dói-dói no nariz quanto mais mas mesmo muito mais que um arranhão e desde então que procuro ser melhor por se ser mau é-se infeliz “faço agora tudo o quanto a minha mãe me diz”

não fazes nada do que eu Te digo não vês pelos meus olhos as coisas que são de ver e eu se pudesse foda-se deixava-Te ver pelos meus olhos para não teres esses olhos tristes "menina dos olhos tristes" dizem as pessoas na festas na casa grande vazia de mais por grande de mais eu queria uma casa mais pequena e queria-Te mais perto só para me lembrar de mim jovem como Te invejo

aí aí aí que me dói a vida dói-me no joelho e no nariz dói-me no vazio dói-me a vida no vazio e é por isso que nem consigo pôr os pés no chão porque se sinto a gravidade então é que está tudo fodido é melhor ficar na cama é por isso que chamo por Ti mãe mãe olha esta lágrima clara não é de sangue de sangue sou eu que sangue meu será Teu
mãe aí aí aí que me dói a vida aí aí aí que não quero o Teu colo não quero o Teu abraço que “quanto é doce quanto é bom” mãe olha este não-abraço olha esta não-criança olha este longe olha este perder de tudo antes de ganhar antes de pôr olhos noutros olhos olha eu a sair pela janela e não “vou com os pássaros”
olha eu a enterrar-me antes de Ti mãe

olha Tu a enterrares-te antes de mim

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

passeei assim
sem me ver muito
sem me sentir muito
sem me saber muito

trouxe um pequeno
veado no bolso

falei muito
de quando era pequena

quando era pequena isto
agora sou grande aquilo

tirei do bolso
o lenço branco
o das três pinguinhas de sangue

manchei o nariz
voltei a ler Grimm
depois Andersen

a morte não me tem aparecido
tenho-te morto
e depois de te ter morto
tenho-me viva
e por isso
a morte não me tem aparecido

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

adeus
assim
cheguei
onde
cheguei
a algum lugar
regresso sem regresso
pediste-me as palavras de volta
desculpa
mas isso é a única coisa
que não te posso dar
vou refazer-me
no passado
e que pena não chegar nunca a um futuro
lugar comum
agora dorme
outra vez

domingo, 14 de dezembro de 2008

S.O.S

agarrei-te
a cara assim
como não se agarra
quando não se quer um beijo

um clown
casou-nos
assim sem querermos

depois fugimos
assim
meio que sem pernas

levaste-me ao metro
porque
choviam pequenas agulhas

obrigada

beijei-te
depois foste embora

e eu olhei para trás
e quase quase
tão quase gritei
AMO-TE

mas
em vez disso
chorei um pouco
assim
meio que
embrulhada
amarrotada
em mim mesma
cantei uma canção baixinho
e perdi-me
nas escadas infinitas
em direcção
aos confins terrestres

Venha o diabo e faça-me um filho

Por favor.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

deves pensar que conheces todos os poemas
e que me mostras todos os poemas

eu também sei fazer poesia nos outros
não ma faças toda
gosto que ma faças

disse-te três vezes que me doi a cabeça
e tu não me deixas ir embora

a saudade que sinto
é uma que invento
mais do que o que me faltas

faltas mas faltas porque quero escrever-te

entendes?
estou a usar-te
a suar-te e a suar-me
mas no fim nem há fotografias de nós nus
nem sequer damos as mãos

há coisas boas nas pessoas
se é para ir é para ir longe

longe em ti
longe em mim

mas no fim
eu quero estar perto
perto perto
de mim mesma

e quero que tu fiques contigo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

sentei-me à espera
que o dia terminasse aos meus olhos e não por trás de mim.
e quando o vazio se estende para lá do corpo
uma mão cansada
pousada
calma
entristece numa quase resistência quase cedência
em jeito de espera demorada e infinita
se calo se abro se fecho.
quando.
sou,deixo de ser,vou correr para me cansar.movi-me.
visto-me de vermelho e saio à rua clara dos outros.
não sei
quantas vezes
me deixei
parar numa rua sem graça
sem praça
e sem cor
para pensar no impensável
de dentro para fora
da magreza estreita
de um corpo doente
de coração que não mente e chora
sim
sim chora
porque chora.
e se me conduzes
que seja sem pressa nos dias
que seja dentro e nunca fora de mim
e se me conduzes
que eu também te conduza
num dentro cego e surdo e difícil na beleza
num sentimento que doi e que se chora
que seja assim.
eu não quero ir às finanças
nem receber cartas da segurança social
eu não quero ter bebés
nem quero ter pais
e irmãos queria ter menos

também me basta de namorados

não consigo sequer lavar a loiça
nem despejar o lixo
nem sorrir no autocarro
nem ir ao doutor

doutor manda-me as melhoras
manda-me um postal de natal
com bons comprimidos dentro

eu fico à espera na cama
e espero fcar muito doente
ou então alguém me dê uma boa palmada no rabo

e sim é uma regressão.
O indivíduo queixava-se de demasiada tristeza,

a gaja não metia os pés na cama.

Sempre o medo do frio.

Veste essa roupa estás a ouvir?

Senão eu fodo-te toda.

Concluiu-se uma inadequação de corpos quando despidos.
estou a ler-te
mas não tenho muita poesia na cabeça estes dias

afinal
nasci ao meio-dia

talvez seja muito diferente.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

em calma noite sem céu
em calma noite sem dia
estou aqui para te esperar
esperar no caso de não vires fazer-nos
esperar no caso de não me vires dizer e contar o amor
e não vens, nunca vieste
o amor também se conta
e tu deixaste deliberadamente de mo contar
eu não sei fazê-lo sozinha
isso do amor

eu posso dizer
sim
eu sei fazê-lo sozinha
isso do amor
mas assim seria para todos
e o amor devia ser só para nós

sábado, 6 de dezembro de 2008

Meio despida
Meio indecisa
Ao pé da porta

Não me quis expôr

Porque a minha mãe não se expõe
E o meu pai não se expõe porque se esconde
Mas eu sempre vivi mais fora que dentro

E agora caiem-me das mãos lágrimas
Que nem sequer apanho dos olhos
E do chão apanhei pedras
Que nem sequer fazem o meu caminho

E o meu lugar ficou pequeno
E as pessoas partiram, todas
E foi de avião

Eu nem sequer gosto da minha rua
Mas também nunca gostei de mim nua
E vivo em mim desde que me encontrei

A verdade é que não vivo sem ti
E nunca, mas juro que nunca
Te procurei
nunca hei-de escrever um poema
sobre o poeta.
puta sem caralho
paraste os teus olhos
na rua de outros
o teu caso nem é cirúrgico
comesses a horas de pequeno almoço
e tomasses banho sem pretensões
e eras.
eras melhor.

vou-me embora de barco
porque meu amor
sou marinheiro
chora antes e depois
porque há muito mais para fazer
do que isso que tu inventas
porque meu amor
isso é tudo saudade
desculpa por não te adormecer.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

quase nunca me mostro

nunca tinhas reparado?

quase sempre sou eu

mas por trás de mim

quase sempre chorei

mas foi de mãos cheias

quase nunca morri

mas foi sempre sem querer

não tenho vontade

(Madmax)

O problema é que não tenho vontade
já só quero pagar o irs
e começar a ir ao Passerelle

e agora tenho uma amiga que vai fazer limpezas à igreja do reino de deus
vou com ela ganhar uns trocos aos domingos

mais nada

e o resto que se foda
que se foda letras
que se foda filosofia
que se fodam as gajas
que se fodam as gajas das gajas
o sócrates
tudo

http://madmax-interzone.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

a minha caixa de cartas em branco está cheia de ti

estou cheia de ti

e de mim

estou cheia de nós

nós que não desfaço nem com o vento

ridiculas são as horas

todas e tantas

pega-as

usa-as

são tuas

mete-me a mão no bolso

vês?

estou cheia de tempo

sábado, 29 de novembro de 2008

a minha avó já foi criança
e brincou com pedrinhas
na berma das estradas com poucos carros
e florestas gigantes por arder

agora está doente
por isso as seis filhas tratam-na por tu

sábado, 22 de novembro de 2008

se te morrer mãe
se te morro

não entendo porque não choras
porque não fraquejas
que norte?

e se te morrer?
sou velha já
tu és mais

se me morreres
se me morres

que norte nos faria fortes?
que norte te faria forte
que eu já de mim sou fraca

não deixes o pai dormir

não o deixes

falta-me tudo

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

desculpa
com toda a sinceridade
mas eu só quero falar de mim
perdoa-me
não é porque não te vejo
é porque te vejo tanto
que preciso que me vejas a mim
antes que me esqueças
é porque me vejo pouco
que me faço ver tanto

antes que me apagues

terça-feira, 18 de novembro de 2008

se te amar enquanto cadáver
nua e fria na cama
cheia de lágrimas frias
sem um sorriso e sem paixão
amas-me de volta?
se eu não te entender
se tu não me entenderes
somos amantes ou devemos afastar-nos?
queres sair comigo?
não tenho os olhos saudáveis para te ajudar a atravessar nas passadeiras
nem tenho os olhos saudáveis para te mostrar aquilo que queres ver
ainda assim
queres sair comigo?
que jardim?
que hora?
que dia?
vou dormir pouco.
doie-me os braços
de te esperarem estendidos
encontro-te onde?
na rua?
no quarto?
vou beijar uma parede
vai beijar a perna da pessoa que te apaixona
que não sou eu
baixei os braços
mesmo antes de tu chegares
vou dormir muito e acordar igual
sem ti
sem mim
sem roupa

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

para não ser feia

é no sono que mato a palavra que me foge da boca com sede
por não saber o que me falta se me falta tudo e falta tanto
e não percorri nada no percurso de mim para a cama
e não suporto magoar feridos
que sejam
e não suporto mais os murros de punho fechado no estomâgo vazio até sempre

e na minha ferida a tua ferida
na minha doença a tua doença
na minha cidade ninguém
no outono morri
no inverno enterrei-me
na primavera quero-me jovem
muito mais jovem
no verão quero ver-te nu de cima para baixo e sorrisos na estrada aberta

só quero dizer
quero mesmo
que me enojei e enjoei na exaustão de uma coisa muito importante
que me esqueci de tudo nas linhas pintadas a carvão
e que não preenchi os espaços porque não sei
só porque não sei

é um perdão sim
é um querer ter duas vidas
é um querer ser cinema mesmo quando cozinho ou despejo o lixo

é música nos meus ouvidos o que peço
para que tudo me fique melhor quando me sinto observada

terça-feira, 11 de novembro de 2008

de profundis amamus

(Mário Cesariny)

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
taquicardia, meu amor.
não te desgraçes.

domingo, 9 de novembro de 2008

Natureza morta

Sua comigo.
Doiem-me as mãos de tão vazias.
Se suasses comigo,
era ao fim da tarde,já escura,
sem medo do depois,
com a invenção do antes e do para sempre.
Sua comigo.
Sua comigo os dias tristes que caminhámos cegos.
Nas mãos suadas, nada.
Nas mãos dadas, nada.
No coração apertado, medo,tudo.
No futuro não há futuro,
há um cipestre agressivo,magnifico,vivo,
onde eu cravarei o meu nome depois de morta.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

E agora sim , vou lavar-me com sabão azul para evitar a doença prolongada.

(sem fotografias)

Senhor Fernando

nem sequer caibo em mim de amor
nem sequer caibo em mim de tristeza
nem sequer caibo no meu corpo
nem o meu corpo cabe em ninguém
e há obrigações para cumprir
e hoje não posso beber vinho tinto
e há uma felicidade absurda melancólica sádica alimentada na tristeza dos outros
porque me fazem sentir sentida
porque me dão o sentimento de compaixão
que é lindo não digam que é feio
e é já difícil encontrá-lo
porque andamos todos meio burros meio adormecidos meio perdidos
nos caminhos de volta para casa
não vejo migalhas
e há um sufoco no peito que não chega a ser choro
e pergunto-me onde raio vou buscar tanta coisa
que eu sou tão pequena e não pedi para viver
e quero ficar assim
e quero ficar sozinha e quero ficar muito sozinha
ou então quero passear nua pela rua
porque não há corpo que caiba no meu corpo
e nem se quer quero partilhar
porque estou egoísta e hoje fui tocada por Deus
e sinto-me mais alta
triste mas mais alta
não te aproximes
nem ouses aproximar-te
que sou capaz de te dar um estalo tão apaixonado que te mato para sempre
deixa-me em paz ou dá-me guerra
a senhora tem mais de oitenta anos
as costas rotas e os braços pesados
vai para casa com uma placa nova
mas não vai feliz
ou não estivesse ela à espera do 35
falta-lhe o marido que era muito bom
e morreu na cama debaixo da cruz
mudo e hirto mas consciente nos olhos
a senhora faz-se feliz por falar comigo
pensa que sou um anjo que desceu à paragem de autocarro
para lhe desejar felicidades
pensa a senhora que os filhos dela não a amam
fala com o da figueira no aniversário dele e no natal de todos
telefona-lhe dos correios porque não tem telefone na casa do morto
e os filhos não lhe enviam cartas porque não gostam de escrever
ponho assim o meu coração dentro do dos outros
e viajo como se fosse o saco de porrada do mundo
voluntariamente entenda-se
e depois há crianças que têm depressões com seis anos
e dizem que são feias e que se vão matar
e os pais bebem muito álcool e até querem ajudar mas não sabem como
porque já morreram antes de ter os filhos
e a segurança social
não segura nem procura nem abraça pais nem filhos nem avós
e depois não há duas mãos que possam fazer alguma coisa
e nós até vamos esquecendo
e fingindo que não é nada connosco
e vamos a concertos muito bonitos
e exposições muito interessantes e muito metafísicas
eu até tirava o dia para dar abraços e chapadas
mas tenho de pagar impostos
para o caso de vir a fazer um filho e ter de lhe dar papa cerelac
também podia tapar os buracos
das estradas de Portugal que estão muito usadas
e como as pessoas gostam de ser porcas
deitam os seus lixos no chão
para as ruas ficarem muito bonitas
e nós sorrimos ao passar nelas
com uma felicidade estonteante
que nos dá um mundo que só pode ser perfeito
e o pior é que ainda assim tenho a ousadia desumana de pensar muito em sexo.
Que horas para se ir dormir.
E que horas para me deixares à espera.
Amanhã acordo cedo.
Vou-me refazer,
lavada com sabão azul vou sair à rua cheia de músculos.
O que queria dizer era menos, muito menos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Mordo-te os dedos

beija-me os dedos ou morde-me os dedos ou vamos acabar com a brincadeira.
deixa-me em paz ou dá-me beijos sem bebedeira.

trinquei o lábio,
já nem é doce, já nem é cigarro.

já é cinzeiro.

vamos acabar com a brincadeira.
não me peças dedos nem mãos onde só há doença.
vamos acabar com a tristeza.

deixa essa mão bem longe da chapada.
se cair bato com os queixos na calçada.
isto não é lisboa.
isto são dedos sem luvas onde se enfiarem.

isto são saudades da saudade.
isto é crescimento sem ter para onde.

isto não é saudade é papel branco sem tinta.

dá-me uma máquina de escrever.
se fosse tudo, era tudo prazer.

beija-me os dedos ou morde-me os dedos ou vamos acabar com a brincadeira.
deixa-me em paz ou dá-me beijos sem bebedeira.

domingo, 2 de novembro de 2008

Carta branca na rua dois

parece-me que adoro escarafunchar nas próprias feridas.
-junta-te a mim

(sorriso)

manda-me músicas
manda-me dormir
manda-me músicas
manda-me cartas
canta-me um fado na rua mais perto.
não te repitas
não te refaças
não me revejas
não me adivinhes
não me adivinhas.

agora como chocolate.

mas se não me falas.

mas qual projecto?

mas não deixo o quê?

mas não deixo quem?

a edith piaf o quê?
com quem?
onde?!

manda-me dormir que tenho é sede
manda-me calar que eu não sei porque falo nem sei o que digo
nem porque disse.

manda-me flores,
manda-me um rio
deixa-me ir nele.

esperei a carta na palavra perdida na boca mordida.

manda-me um lamento, desses que não se lamentam,

o teu marido era um dragão.
o meu marido é um dragão.

e tu tinhas esta voz, esta, esta voz.

manda-me um lamento,
manda-me um rio
deixa-me ir nele.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ontem foi tão tarde, 00.48

Se a minha cabeça pensar em muitas linguas.
Se a minha cabeça pensar em muitas linguas.
Rápida, agressiva para o meu corpo,nas linguas desconhecidas.
Se a minha cabeça me falar em romeno.
Se a minha cabeça me falar em romeno.
Para que eu não a entenda.
É porque devo sair pela janela.
Mesmo sendo inverno.
Sair pela janela do sexto andar e apanhar um bom granizo nas fuças e sangrar ao cair numa qualquer neve branca longe do país.

Ela sai pela janela num ridiculo pah duh boo-ray.