A minha avó não me disse que tinha dias contados
quando eu era nova,
nem me disse que seria feliz em dias de doença,
nem me disse que adoeceria quando eu estivesse longe,
nem que eu seria cruel ao ponto de partir
e virar as costas à velhice dela.
Quero que haja um Deus,
para ela,
que gastou tanto a sola dos sapatos na igreja de S.Domingos.
E que rezou por mim, todos os dias, sem pensar nela,
aos seus filhos,
Gabriela,
Tomás,
José Carlos,
António José,
Etelvina,
Adelaide,
Laura,
Teresa,
Maria do Carmo,
Que a tormenta os faça irmãos,
Que os acalente
um pai inexpressivo.
Que não se apague uma casa de infância,
Que não haja um Natal sem a presença de todos nove.
Que não haja a falha da memória de um terraço pintado de vermelho,por mim e pelo meu primo.
Que não se esqueçam os choros e berros na sala pequena,
Que não se esqueçam as crianças que não param de crescer,
enquanto esperam pelos pais sem os deveres feitos.
Que não se esvazie a casa.
Que não me perca,
eu,
nas memórias dos meus 23 anos, feitos e chorados decentemente.
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