segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Carta à minha irmã

Queria dizer-te primeiro de tudo que vou mudar-me para o teu quarto, uma vez que já não moras aqui e o quarto está vazio de gente vou mudar as minhas coisas para lá e as tuas vão para o sótão. O teu quarto é maior, e eu estou a crescer muito por isso preciso de espaço, se não te importas fico com a tua mobília porque é mais bonita, e também com aquele candeeiro que fizeste com o cabo do chuveiro.
Vou começar a fazer os passeios de bicicleta que tu fazias quando tinhas a minha idade, vou percorrer exactamente os mesmos caminhos da veiga junto à praia e depois vou parar para ver o mar, mas não vou fumar um cigarro porque eu não fumo, sabes ,já tenho quinze anos. Vou ficar sentado na areia de inverno e ver o mar frio e comover-me com a vida da mesma maneira que tu, depois ao chegar a casa não vou ter uma irmã como tu tinhas um irmão, por isso vou discutir com a mãe e com o pai. Foste-te embora num momento tão importante da minha vida, não me vais ver chorar de crescer como eu te vi chorar a ti, fechavas-te no quarto e choravas a ouvir músicas deprimentes enquanto o telefone tocava no fundo das escadas, era sempre para ti. Eu sou diferente, por isso o telefone não passou a tocar para mim, mas sim passou a tocar menos. Eu sou mais introvertido do que tu eras, mas mesmo assim toda a gente me conhece na escola, tu sofreste com isso, eu não, mas mesmo assim gostava de ser mais sozinho quando passo nos corredores, toda a gente sabe o meu nome. Faz muitos anos que deixaste esta cidade mas mesmo assim há pessoas que se lembram de ti e que me reconhecem como teu irmão.
Às vezes, raramente, ajudavas-me a fazer os trabalhos de casa, sei que se estivesses aqui agora não poderias porque não entenderias nada do que ando a estudar, tomamos diferentes rumos. Eu agora já não sou pequeno e não preciso mais da protecção que tu nunca me deste. Eu sei que gostavas de mim, mas tu nunca gostaste de fardos, sempre quiseste fazer tudo sozinha, até brincar, era uma coisa só tua, intima, não deixavas que ninguém te visse a brincar. Isso magoava-me muito na altura, eu chorava e ia dizer à mãe que tu me fechavas a porta do quarto. Com o tempo passei a brincar mais com o Ricardo e ele foi mais meu amigo que tu, e tu mais amiga dele que minha. Mas eu agora compreendo-te, e não te odeio. Sempre te admirei, quando olhava para ti com cara de espanto pelas coisas que tu fazias e dizia que eras maluca, juro que queria ser como tu. Não sei o que tínhamos de parecido, mas devíamos com certeza ter alguma coisa mais além dos olhos e dos cabelos. O pai acha-te mais especial do que eu, a sério, ele disse-me. Mas eu é que não me expresso muito, sofro muito para dentro e só falo com o pai de coisas que sei que não ajudam a criar laços, acho que sou assim com toda a gente, é melhor para a minha estabilidade emocional. Deixa-me dizer-te que os gatos já não se lembram de ti, e a Laica também não.
Nós sofremos muito nos primeiros tempos da tua ausência, mas habituámo-nos e agora somos felizes, não falamos muito em ti, mas quando falamos sorrimos sempre.

O teu irmão.


Maio de 2005

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